quarta-feira, 8 de abril de 2015

A Religiosidade de Ricardo Reis

Ricardo Reis é apenas um das múltiplas face do Supra-Camões (como gostava de pensar sobre si mesmo o grande Fernando Pessoa).
Este heterônimo pessoano era médico e devido aos seus ideais monárquicos, foi exilado (espontaneamente) aqui no Brasil.
Sua poesia é repleta de referências à Cultura Clássica e aos mitos pertencentes a essa cultura. Em vários de seus poemas, podemos encontrar menções a Apolo, Vênus, Netuno e muitas outras entidades mitológicas. No entanto, Ricardo Reis tentava fazer conviver em suas odes a existência dos deuses romanos juntamente com o deus cristão. Isso significa que, para ele, Jesus Cristo não era um deus único, filiado ao Pai e ao Espírito em apenas uma unidade, mas ele era considerado apenas um deus a mais, "talvez um que faltava". Dessa forma, o panteão ricardiano, por assim dizer, era um lugar no qual coabitavam os deuses clássicos e o Deus Triste. Este último título é a maneira como ele se refere a Cristo.
Na verdade, esse neo-classicismo de Ricardo Reis é um ponto de vista amplamente democrático, afinal, ele reconhecia a existência desses deuses sem negar nenhum, dando lugar igual a todos.
É uma pena que ele não tenha mencionado outros deuses de outras culturas. Mas é compreensível, afinal, sua estética bebia do clássico latino. Tanto que seus poemas tomavam o formato de odes e sua sintaxe trazia sempre muitas inversões comuns no latim literário, que não possuía uma sintaxe fixa.
Ricardo Reis, além de incluir Cristo no panteão latino, ainda ataca aos seus seguidores, no caso, os cristãos. O próprio heterônimo afirma que faz isso devido ao fato de que esses crentes tentam impor seu deus e apenas aceita a Ele como o único... esse fato faz com que Reis lamente que, agora, os deuses sejam lembrados apenas como enfeites e alegorias.
Abaixo, temos um poema que ilustra bem as ideias desse fragmento pessoano:


O Deus Pã não morreu, 

Cada campo que mostra 
Aos sorrisos de Apolo 
Os peitos nus de Ceres — 
Cedo ou tarde vereis 
Por lá aparecer 
O deus Pã, o imortal. 

Não matou outros deuses 
O triste deus cristão. 
Cristo é um deus a mais, 
Talvez um que faltava. 
Pã continua a ciar 
Os sons da sua flauta 
Aos ouvidos de Ceres 
Recumbente nos campos. 

Os deuses são os mesmos, 
Sempre claros e calmos, 
Cheios de eternidade 
E desprezo por nós, 
Trazendo o dia e a noite 
E as colheitas douradas 
Sem ser para nos dar o dia e a noite e o trigo 
Mas por outro e divino 
Propósito casual. 

Ricardo Reis, "Odes"


Nesse poema, a posição de Reis a respeito da relação entre os deuses é bastante clara, no entanto, em diversos outros poemas ele denuncia também sua opinião a respeito dos cristãos.
Essa característica pode ser explicada pelo fato de Ricardo Reis ter sido pupilo do mestre Alberto Caeiro, outro heterônimo pessoano que também possuía raízes clássicas. Dessa forma, Reis encontrou no paganismo a negação da sua sociedade e isso inclui o catolicismo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Deus ex Machina

Era uma vez
Todos os problemas do Planeta
Que foram, enfim, resolvidos,
Pela queda de um cometa.

sábado, 4 de outubro de 2014

Linguagem



Você já deve ter ouvido falar que algumas espécies de animais, como as baleias e os macacos, conseguem se comunicar entre si. No entanto, a comunicação limitada desses animais só consegue emitir um número restrito de informações.
Por exemplo, as abelhas possuem uma espécie de dança através da qual um indivíduo consegue passar para as demais operárias a localização da fonte de néctar, dando a direção e a distância aproximada através da posição do sol.
Além das abelhas, alguns macacos usados em experimentos conseguem aprender um número limitado de sinais através dos quais conseguem se comunicar com seus treinadores. No entanto, ainda estamos um pouco longe de vermos um Cesar conversando com um Maurice, como no Planeta dos Macacos...
Como nos diz o linguísta, matemático e filósofo do MIT, Noam Chomsky, criador da teoria da Gramática Gerativa, ao contrário da comunicação animal, a linguagem humana consegue produzir (gerar, daí o nome da teoria) um número ilimitado de informações através de um número limitado de recursos linguísticos. Ou seja, através do conjunto de palavras de uma dada língua (o vocabulário) e das regras de combinação dessas palavras em frases (a sintaxe), o falante consegue criar um enunciado que até então ele não tinha ouvido antes, o que torna a capacidade de produzir novas informações praticamente ilimitada... essa capacidade é tão complexa e intricada que até hoje não sabemos exatamente se ela é adquirida através do contato diário com outras pessoas ou se ela é inata, inscrita no DNA humano, como também defende Chomsky.
Mas e de onde veio a linguagem? Essa questão ainda é altamente debatida entre linguistas, antropólogos, psicólogos e biólogos, mas é um pouco difícil se alcançar um resultado satisfatório justamente porque a capacidade de produzir e compreender sons oriundos da boca de outra pessoa surgiu muito antes da capacidade de representar esses sons em desenhos dotados de significado: a escrita, que surgiu na China por volta do ano 3.000 antes de Cristo.
Ainda no século XIX, pesquisadores utilizando o método da gramática comparada chegaram à conclusão de que o sânscrito, idioma sagrado da Índia, tinha características próximas ao grego e ao latim e por isso deveria haver uma língua ancestral em comum a todas as outras línguas. Essa hipótese sugeria que uma protolíngua, o Indoeuropeu, teria dado origem a todas as línguas faladas no eixo Europa-Índia, com algumas exceções, como o Basco, idioma falado em uma pequena região do norte da Espanha. Hoje os linguistas admitem a existência de outros troncos linguísticos, ou famílias de línguas, como o Macro-tupi, que abrange grande parte das mais de 200 línguas indígenas faladas em nosso território.
Mesmo sem uma conclusão a respeito da origem da capacidade linguística, não podemos deixar de perceber o quanto essa habilidade nos ajudou na evolução, já que a partir da comunicação avançada o homem pôde passar a informação apreendida para outros indivíduos, gerando assim a educação passada para outras gerações e é por isso que não precisamos ficar reinventando a roda todos os dias... literalmente.
A capacidade de produzir sons com a junção de partes do aparelho respiratório (pulmões, diafragma, esôfago) e parte do aparelho digestivo (faringe, cavidade oral) formando o que os foneticistas chamam de aparelho fonador não serve apenas para a mera troca de informações. Na verdade, o homem adaptou tanto a capacidade da linguagem às suas necessidades diárias que ela evoluiu ao ponto de seu uso poder transpassar ideologias (“não sou preconceituoso, mas...”), convencer o outro (argumentação) e mesmo ser considerado arte, formando as mitologias nórdica, grega, japonesa e etc e chegando na forma de literatura que conhecemos hoje, seja com os cânones, como Machado de Assis, ou com os já clássicos da cultura nerd: O Senhor dos Aneis e Assassins Creed.

E falando em evolução, esse termo foi emprestado de Darwin justamente para mostrar que as línguas vão variando no tempo e no espaço, uma dando origem a outras várias, assim como o latim lá da Roma de 2000 anos atrás veio dar origem a esse português falado no interior das florestas tupiniquim. Essa característica mutante das línguas também seria um grande problema para as viagens temporais... mas isso já foi assunto do nosso post Viagem no tempo e variação linguística (?)

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Letramentos de resistência



Pensar em uma sociedade igualitária é pensar em um mundo no qual todos poderão ter acesso à Educação. Essa realidade, no entanto, está um pouco distante, apesar dos esforços governamentais de ampliação do acesso ao ensino básico e superior.
Dessa forma, Kleiman, em seu artigo Trajetórias de acesso ao mundo da escrita: relevância das práticas não escolares de letramento para o letramento escolar nos apresenta os resultados de algumas pesquisas que visaram a analisar algumas práticas de letramento que tinham por finalidade fazer com que pessoas de baixa renda, vindas de famílias tradicionalmente não escolarizadas, fossem letradas para que tivessem acesso ao mundo da escrita e recebessem a "aculturação letrada". Ao contrário do que o prefixo a- pode sugerir, aculturar é justamente prover cultura. Já que vivemos em uma sociedade grafocêntrica, fazer com que os jovens se tornem leitores competentes é uma forma de ampliar a participação cidadã desses jovens.
Letramento é aqui entendido como um passo além da alfabetização. É ensinar o aluno a atuar no mundo real através da prática da leitura e da escrita.
Ainda de acordo com Kleiman, esse letramento de resistência é feito a partir dos letramentos locais entendidos como

as práticas de letramento vernáculas, não institucionalizadas, menos prestigiosas e menos visíveis que as práticas de letramento da escola, da universidade, da imprensa, entre outras instituições, que são práticas legitimadas globalmente (p. 388).


Ou seja, não atreladas à Educação hegemônica estão os letramentos locais, frutos de esforços particulares feitos por determinados indivíduos com a finalidade de auxiliar os jovens de baixa renda que vivem à margem da sociedade. A autora cita alguns exemplos de como esses letramentos podem se dar na prática, como um grupo de professores não formados que atuam como educadores de jovens e adultos.
Esse tipo de atitude só faz com que a comunidade se fortaleça e os jovens adquiram maior capacidade de comprometimento social. 
A educação é direito de todos e dever do Estado, conforme resguarda a Constituição, no entanto, preencher as lacunas deixadas pelo ensino precário não é apenas uma forma eficaz de se cumprir seu papel social, mas, conforme o termo de Kleiman, é uma ótima resistência contra o poder hegemônico e central.

sábado, 13 de setembro de 2014

Divulgação científica: democratização da ciência



Olá a todos.

Estou estudando a respeito da Análise do Discurso da Divulgação Científica, que é um modo de analisar discursivamente a maneira como os jornalistas, ou cientistas, popularizam o conhecimento científico para o grande público.

É aí que percebi que é através da linguagem e pela linguagem que a Ciência se transforma em conhecimento geral, ou seja, atinge à população cumprindo parte de seu papel social e democrático.

Aprendemos que o conhecimento científico é o que faz o mundo girar. Nossa sociedade evolui, a tecnologia avança e sempre novos conhecimentos e técnicas vão sendo criados simultaneamente em cadeia, assim, não precisamos reinventar a roda todos os dias...

O que acontece com o conhecimento científico é mais ou menos o seguinte:

1. Pesquisa científica
2. Publicação científica
3. Recontextualização do discurso
4. Divulgação (popularização científica)

Na base de tudo estão as pesquisas científicas desenvolvidas por pesquisadores de todas as áreas do conhecimento. Essas pesquisas são publicadas em periódicos e revistas especializadas e é o primeiro passo da divulgação, mas para um público mais restrito formado pelos pares do cientista, ou os que trabalham naquela área. Sendo assim, para que o conhecimento seja divulgado e popularizado, chegando até o cidadão comum, é necessário que haja uma modificação, uma recontextualização (Van Dijk, 2011) do texto científico de modo que ele fique mais acessível ao público leigo.

Essa adequação do texto é feita, na maioria das vezes, por jornalistas que se debruçam sobre os estudos, no entanto, algumas vezes os próprios cientistas, como vozes legitimadas, fazem a adequação do texto.

Temos hoje muitos jornais que divulgam a ciência, principalmente temas de importância mais imediata para a população em geral, como as questões relacionadas à saúde, ao meio-ambiente, etc.

No entanto, um grande número de revistas, programas de televisão e espaços na internet têm se dedicado à divulgação do saber científico, como as revistas Galileu, Superinteressante e Ciência Hoje, os programas Globo Ciência e Globo Universidade, bem como sites, blog e canais como o Nerdologia e o Diário de Biologia.

Na verdade, até mesmo desenhos animados e programas infantis servem como ótimos divulgadores da ciência, como o clássico Mundo de Beakman (imagem acima).

Claro, não podemos deixar de nos lembrar dos livros e filmes de ficção científica.

Diante de tudo isso, é fácil notar que a democratização da ciência é um fator muito importante por tornar o indivíduo um cidadão capaz de atuar de forma mais contundente e crítica na sociedade, afinal, ele estará adquirindo mais conhecimento.

Assim sendo, que venham mais canais de divulgação científica! :)

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Index Librorum Prohibitorum: a literatura proibida



Em A Relíquia, romance de Eça de Queirós, o protagonista viaja até a Terra Santa, financiado por uma velha tia, com a obrigação de trazer para ela uma relíquia milagrosa das terras sagradas. Acontece que Teodorico Raposo não é um verdadeiro exemplo de fiel e durante o enredo, faz sérios questionamentos a respeito da religião predominante no Portugal do XIX: o catolicismo. 

Já em A confissão de Lúcio, do português Mário de Sá Carneiro, nos deparamos com alguns personagens com um comportamento sexual não muito visto em obras literárias, mesmo já sendo no início do século XX. Esse último romance traz um salto enorme ao introduzir na narrativa um beijo homossexual:

"Rindo, o meu amigo ergueu-se, avançou para mim… tomou-me o rosto… beijou-me…
O beijo de Ricardo fora igual, exatamente igual, tivera a mesma cor, a mesma perturbação que os beijos da minha amante. Eu sentira-o da mesma maneira."

Mas agora, o que o profano romance de Eça de Queiros tem em comum com a moderna narrativa de Sá Carneiro, além da nacionalidade portuguesa? Os dois foram proibidos pela Igreja Católica por serem obras que feriam a moral e poderiam levar os fieis a se desviarem do caminho certo...

Para evitar que esse tipo de coisa acontecesse, durante a Reforma Protestante a Igreja Católica criou um índice de livros que os fieis estavam proibidos de ler, o Index Librorum Prohibitorum, ou, o Índice de Livros Proibidos. A primeira lista surgiu em 1559 e foi idealizada pelo Papa Paulo IV. Além de obras literárias, vários tratados científicos, filosóficos e teológicos foram sendo incluídos na lista, como os escritos de Descartes, Galileu Galilei, Thomas Hobbes, Lutero, Calvino dentre outros de variadas nacionalidades e épocas, pois o Index só foi abolido em 1966. (Fonte: Wikipédia)

Bom, sabemos muito bem que durante a Idade Média a Inquisição era uma força real que desencorajava as pessoas que não compartilhavam da fé católica (ou mesmo os pensadores católicos) a se posicionarem contra a Igreja. Alguns dos autores das obras proibidas foram queimados na fogueira ou foram obrigados a desmentir seus escritos. Isso é compreensível, sob um ponto de vista histórico. O que assusta é que essa lista proibitiva chegou muito longe no tempo, vindo a ser abolida apenas há cinquenta anos atrás. 

Mas é ai que a coisa complica mais um pouco, pois a Igreja continua aumentando essa lista de livros que não são recomendáveis para o bom cristão que pretende seguir firme nos passos da sua fé. Bom, em pleno século XXI não há espaço para proibições, portanto o discurso da Igreja mudou. Antigamente ela chegava mesmo a proibir a publicação desses títulos, mas depois do enfraquecimento de sua influência, ela só pôde sugerir que esses livros não fossem mais lidos.

Obedecer ou não à Igreja é opção de cada fiel. Na verdade, essa proibição, hoje em dia, chega a servir como uma espécie de impulso publicitário, pois muitos irão lê-los justamente por serem "proibidos"... 

Essa questão, apesar de antiga, é ainda recente. Há pouco tempo o livro O Código Da Vinci, de Dan Brown, também foi incluído na lista com a classificação mais alta na avaliação do Vaticano, L-C3 que significa que o livro possui conteúdos explícitos que contrariam a fé ou a moral católica ou se dirige diretamente contra a Igreja e suas instituições.

Existe um site do Vaticano no qual é possível fazer uma busca rápida sobre algum título para saber se ele é listado ou não no Index, inclusive, encontramos por lá alguns títulos de escritores brasileiros como Machado de Assis, Rachel de Queiroz e até Chico Buarque!

E agora, o leitor está curioso sobre o livro que anda lendo? Procure por ele aqui no site De Libris, vinculado ao Vaticano (tem a versão em inglês e em espanhol). Como o próprio site anuncia, você está "em busca de boas leituras"... 


P.S.: estou lendo um dos proibidos, O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, que segundo o site apresenta alguns inconvenientes morais!


domingo, 27 de julho de 2014

Sobre séries e literatura...



Seriados que trazem uma temática mais sobrenatural são os meus preferidos. Recentemente, por indicação de um amigo, comecei a assistir a um chamado Penny Dreadful, de John Logan. O nome não é muito explicativo, mas significa algo como "centavos de terror". Na verdade, penny dreadful era um tipo de publicação de histórias assustadoras que circulava em meados do século XIX na Inglaterra. Essas histórias eram curtas e por isso sua publicação era barata, literalmente, um centavo, o penny.
Acompanhando então essa característica de ser baseado em contos vitorianos, a série faz uma verdadeira mistura literária. Dentre os personagens principais podemos encontrar o eternamente jovem Dorian Gray, protagonista do romance O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, bem como podemos encontrar o Doutor Frankenstein (imagem acima) e suas bizarras experiências, como foi descrito por Mary Shelley no romance Frankenstein, de 1831. Além desses dois, encontramos também o famoso caçador de vampiros, Van Helsing, personagem do clássico Drácula, de Bram Stoker. Ora, o romance que abriu as portas para o vampiro literário não poderia deixar de ser uma referência, visto que o principal inimigo enfrentado pelos protagonistas é justamente um vampiro que se aproxima bastante das lendas balcânicas, pois é retratado como um monstro, sedento por sangue e sem muita consciência humana, tal como o vampiro passou a ser retratado em obras posteriores. Além das explícitas referências a romances clássicos ingleses, principalmente do século XIX e início do XX, encontramos também algumas menções a personagens históricos, mas cujas representações se perderam no imaginário popular, vindo a se tornar praticamente referências literárias, como o famoso assassino em série, Jack, o Estripador.
Outras figuras típicas dos romances de terror aparecem em pitadas bem medidas no enredo, como o lobisomem, possíveis demônios e mesmo uma médium. É interessante ressaltar que a história se passa na Londres Vitoriana e era por esse tempo que o Espiritismo começava a ganhar forças em Paris e em outras partes da Europa.
Sabemos, desde Platão e Aristóteles, que a Arte imita a vida. É o chamado mimesis, ou cópia, representação. Se podemos dizer que a arte se inspira na vida, podemos dizer, também, que uma obra de arte pode se basear em outra, ou outras. Essa espécie de intertextualidade interarte é encontrada em qualquer tipo de prática artística. Um poema que cite Romeu e Julieta, uma escultura de um mito grego, um quadro que ilustra um romance... as opções são praticamente infinitas.
Outro modo de encontrarmos esse diálogo entre diferentes obras de arte é o caso das adaptações para a tela de textos literários. Muitos filmes e seriados são adaptações de romances, contos e mitos. Ocorre uma alteração do objetivo artístico da obra e alguns teóricos defendem que o produto passa a ser realmente uma outra peça artística e não uma adaptação. Não iremos entrar no mérito da crítica artística em geral, no entanto.
Além dessa série que deixa explícita a intertextualidade com a literatura de terror inglesa, podemos encontrar outras referências, talvez mais implícitas, em outras séries como Grimm, que traz, inclusive, citações dos contos de fadas dos irmãos que emprestaram seu nome ao seriado, Supernatural, que dentre outras referências faz menção à Bíblia, Once Upon a Time, que também se baseia em contos de fada e outras séries que são baseadas em livros, como True Blood, baseado na série de romances escrita por Charlaine Harris, bem como o famoso Game of Thrones, cuja série de romance homônima ainda é escrita por George R. R. Martin.
Bom, seja como for, notamos que a sétima arte (aqui estendida para a produção videográfica em si) também dialoga e bebe de outras fontes artísticas.
Nesse caso, da literatura.

Fonte da imagem: http://www.dreadcentral.com/news/75569/spend-your-friday-night-penny-dreadfuls-victor-frankenstein#axzz38ge4QMr3

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Encerrando um ciclo

E com a análise desse poema, encerro meu ciclo de anos e anos na graduação em Letras.
Foi um tempo bom, deixará saudades... :)

A Ronda Noturna – Olavo Bilac



Noite cerrada, tormentosa, escura,
Lá fora. Dormem em trevas o convento.
Queda imoto o arvoredo. Não fulgura
Uma estrela no torvo firmamento.
Dentro é tudo mudez. Flébil murmura,
De espaço a espaço, entanto, a voz do vento:
E há um rasgar de sudários pela altura,
Passo de espectros pelo pavimento…
Mas, de súbito, os gonzos das pesadas
Portas rangem… Ecoa surdamente
Leve rumor de vozes abafadas.
E, ao clarão de uma lâmpada tremente,
Do claustro sob as tácitas arcadas
Passa a ronda noturna, lentamente…

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Com raiva e fúria - Sophia de Mello Breyner Andresen




Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs a sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

domingo, 3 de novembro de 2013

Revisão textual para quê?

Olá a todos.
Escrevi, há pouco tempo, um artigo falando a respeito da prática de revisão textual para o blog de uma colega. Abaixo, publico o texto completo. Para a visualização da publicação original, visitem o blog Revisão Textual e Tradução.

Quem é que nunca ficou na dúvida a respeito da maneira correta de escrever uma palavra, acentuar, pontuar, usar um dos porquês ou expressar a ideia da forma mais clara possível? Não se preocupe, isso é perfeitamente normal. Ao contrário da língua falada, que é natural, a língua escrita deve ser aprendida através da educação formal, ou seja, pelas escolas. Além desse caráter “não natural”, a escrita tende a se preservar mais que a língua falada e, assim, problemas quanto à utilização dessa ou daquela forma podem surgir. E é aí que entra o profissional de revisão de textos.
O revisor deve possuir um domínio muito bom sobre a gramática da língua em questão, no nosso caso, o português. Além de dominar as regras básicas da ortografia (do grego orto= direito, graphos= escrita: escrita certa, direita) o revisor deve também estar atento à colocação das palavras em uma frase, à estrutura dos parágrafos e à maneira como a informação é passada, ou seja, se o texto apresenta coesão e coerência.
Para ser revisor de texto concursado, normalmente é exigida a formação superior em Jornalismo ou em Letras. Na verdade, não pretendo pender a balança para nenhum lado, mas acredito que a formação em Letras seja a mais completa para o exercício dessa função. Dependendo da habilitação escolhida no curso, os alunos de Letras têm aulas de Estilística, por exemplo, que dá as bases teóricas necessárias ao aluno para que ele saiba que cada um tem seu estilo, suas escolhas na hora de produzir um texto. Como era de se esperar, o estilo do autor do texto deve ser observado e respeitado durante a revisão textual, caso contrário, o revisor estará retirando a “marca pessoal” do autor original. Além disso, em alguns cursos de Letras existem disciplinas específicas para a prática da revisão textual.
De acordo com as tabelas oficiais, uma revisão técnica, que resolve apenas os problemas superficiais do texto, varia de R$ 4,00 a R$ 8,00 por lauda. Já uma revisão mais detalhada, que leva em conta o estilo, o nível de compreensão do texto e orienta melhorias sai, no mínimo, por R$ 13,00 por lauda. É claro que cada revisor, principalmente se for independente, pode atribuir o valor que desejar ao seu trabalho. Eu, por exemplo, cobro bem abaixo do valor estabelecido já que atendo, principalmente, a estudantes universitários.

Como ninguém consegue aprender todas as regras gramaticais e como nem todos têm facilidade com a tessitura textual, a revisão por parte de alguém capacitado, que tenha estudado para isso, é de suma importância. Depois de tanto ler aquele artigo que será enviado para publicação, você já está tão acostumado com a sua escrita que certos vícios e erros passam despercebidos. E lembre-se de que o Word possui uma boa ferramenta de correção gramatical, mas como todo mundo já deve ter notado, ele não resolve todos os problemas. Dessa forma, se você pretende apresentar seu texto bem construído e livre de problemas, a passagem do mesmo pelas mãos de um bom revisor é um dos passos principais.

sábado, 19 de outubro de 2013

Invocação do Mal: mais do mesmo de forma surpreendente!



Mais do mesmo. Muito mais do mesmo. Mas ainda assim, surpreendente e completamente diferente de tudo o que já vi antes.
Essa é minha principal crítica ao filme Invocação do Mal recém lançado no Brasil. Esse filme de terror, produzido pela Warner Bros e dirigido por James Wan (o diretor de Jogos Mortais) faz um apanhado de técnicas de suspense muito recorrentes nos filmes desse gênero, além de trazer novamente alguns temas praticamente clichês, como a possessão demoniaca, uma boneca que se move sozinha, uma casa mal assombrada com direito àquele porão, dentre outros...
No entanto, para a surpresa do público expectador (inclusive eu), a mistura de tanto sucesso clássico dos principais filmes de terror não provocou uma "overdose", nem mesmo um leve exagero. Foi tudo na medida certa. O público se assusta a todo instante, sempre apreensivo com a figura assustadora que aparecerá na porta que acabou de se abrir sozinha...
A fotografia e a trilha sonora estavam impecáveis ao meu ver, diga-se de passagem.
O enredo narra a história, dita baseada em fatos reais, que se passa com uma família que se muda para uma casa antiga no campo. As principais cenas são gravadas na residência que foi, em outros tempos, habitada por uma bruxa. Na casa havia outros espíritos de antigos moradores e empregados da casa. Logo ao se mudar, a família começa a ser vítima de diversos tipos de atividades paranormais, daquelas bem clássicas, como os quadros que se desprendem das paredes, os pés que são puxados à noite e as portas que se abrem e fecham sozinhas. O interessante é que tudo foi feito de forma simples e ao mesmo tempo inovadora. Parece que ao vermos aquela cena na qual sabemos que vai acontecer algo, nossa atenção se acentua e o susto é maior. Até a cena tão comum da cadeira de balanço que se movimenta sozinha conseguiu ser clássica e diferente ao mesmo tempo.
Depois de alguns momentos, um famoso casal de "caçadores de fantasmas" aparece. Coloquei entre aspas pois os próprios personagens dizem não saber como se intitular. O casal reconhece que há algo de errado na casa e resolve ajudar à família com suas técnicas bem aos moldes das sessões de caça ao sobrenatural dos meados do século XX, com a câmera fotográfica e gravadores digitais tentando captar qualquer vestígio da presença de espíritos.
Ao término, o que parecia ser mais uma cena recorrente nesse gênero acabou por se mostrar, novamente, inusitada, pois o exorcismo foi feito de uma forma diferenciada. Certamente não vou dizer aqui que forma foi essa, assistam e vejam por si mesmos!
E fiquem tranquilos porque não revelei nenhum detalhe do filme que provoque uma modificação significativa no suspense provocado pela obra.
Portanto, seja no cinema ou no seu quarto, se prepare para assistir ao filme que está sendo considerado pela crítica como o melhor filme de terror do século XXI.
Alguns dizem que ele foi melhor do que clássicos como O Exorcista devido ao sucesso da bilheteria. Bom, eu não tenho dados estatísticos para me basear, mas a minha opinião com certeza é a mesma!

Para mais informações, acesse: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-203607/

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Mestrado? Mas já? E agora? Já era tempo né cara...

E finalmente chega o grande dia: a família orgulhosa, os amigos já saudosos, os momentos de graduação chegando ao fim e... e agora? Que fazer depois de conquistar o tão sonhado (suado) diploma?

                                               


Não sei. Cada um segue um rumo diferente. No meu caso, eu poderia fazer muitas coisas, mas optei por seguir na carreira acadêmica, então, a passagem pelo mestrado é certa e praticamente obrigatória. Bom, é obrigatória já que não faço parte do seleto grupo de gênios que conseguem sair da graduação e ir direto para o doutorado...
Enfim, ao menos já me decidi sobre uma coisa: vou tentar mestrado.
Mas daí surge outra dúvida tão importante quanto a primeira: vou fazer mestrado no quê?
A formação acadêmica é como um funil. Primeiro você vê de tudo um pouco nos anos de educação básica, depois escolhe uma área para se graduar e vê muitas disciplinas, teorias, técnicas e etc de uma área específica. Aí depois você deve escolher uma dessas disciplinas e algumas teorias para se dedicar e se especializar. A partir daí você será um especialista, mestre e/ou doutor em determinada área do conhecimento. Diante de tantas alternativas, escolher um único caminho parece uma tarefa árdua. A principal dica é buscar dar continuidade aos estudos na área que mais lhe chamou a atenção na graduação. A tarefa de pesquisador é árdua e, por vezes, ingrata. Assim sendo, trabalhar com o que se gosta é, além de um luxo para poucos, uma verdadeira necessidade.
No meu caso, fiquei na dúvida entre as pesquisas na literatura ou na linguística. Depois, me decidi pela linguística e me vi diante de um labirinto de teorias e abordagens completamente diferentes. Por fim, misturei uma coisa na outra e consegui elaborar um pré-projeto de pesquisa para pleitear o mestrado.
Ao menos não estou sozinho, pois vejo vários colegas, tanto aqui na universidade quanto nas redes sociais, que estão passando pelas mesmas dificuldades.
Se você está pensando em seguir carreira acadêmica, ou está dando os primeiros passos na pós graduação, recomendo o blog www.posgraduando.com, que disponibiliza várias dicas interessantes.
Acredito que o primeiro passo é escolher uma área e um objeto de análise que desperte sua atenção e curiosidade. Lembre-se de que a vontade de aprender mais sobre aquilo será seu principal incentivo (muito mais que a bolsa). Depois disso, converse com algum professor que trabalhe na área, ele te dará boas sugestões! Caso seja possível, faça uma iniciação científica ou seu TCC ou monografia na área. Você já estará mais familiarizado e pode aproveitar suas leituras e escritos para ingressar na tão sonhada pós.
Pronto, depois basta se preparar bastante para a seleção. Tente não fazer apenas para uma universidade para aumentar suas chances.
Mas não acumule muita coisa para estudar, senão, o tiro sai pela culatra e você não se prepara bem para nenhuma das seleções!
Ah é, não se esqueça também de ter sempre um plano B. Seja poder voltar para casa e esperar pelo próximo processo seletivo; seja trabalhar e continuar se preparando melhor; seja se manter vinculado à universidade como aluno especial. O importante é ter uma meta, ter certeza de que você quer seguir pela pós graduação. Se não for dessa vez, não desista, continue tentando.
Bom, nesse momento estou tentando bolar um plano B também...
Mas, falando nisso, me deem licença porque já vou voltar para os estudos.
Até breve.







sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Discurso de Luis Ruffato na Feira do Livro de Frankfurt: realidade ou exagero?



No dia 08 passado, um discurso proferido pelo escritor mineiro Luis Ruffato gerou uma série de insultos contra ele nas redes sociais, e também pessoalmente, por alguns brasileiros que assistiam à cerimônia.
A maioria dos protestantes não gostaram da maneira como o escritor se referiu ao Brasil, dizendo que ele estava denegrindo a imagem do nosso país frente ao mundo todo que voltava sua atenção à famosa feira de livros da cidade alemã.
Durante seu discurso, Ruffato se referiu à miscigenação tão aclamada do povo brasileiro, dizendo que, na verdade, ela foi formada pelos estupros de índias e negras por parte dos homens brancos. Além disso, o autor chamou a atenção para os séculos de escravidão em nosso país e como a abolição da escravatura contribuiu para fazer com que grande parte da população afro-descendente continuasse situada nas camadas menos favorecidas (odeio esse eufemismo) da sociedade. O autor também chamou a atenção para o machismo e a hipocrisia tão evidentes na nossa cultura, além de citar o "capitalismo selvagem" que reina por aqui.
Essas críticas, no entanto, foram recebidas como ofensas por muitos brasileiros, inclusive por outros escritores, que discordaram das opiniões expressas por Ruffato.

Pronto. A partir daqui deixo de lado meu aspecto de informante e passarei a redigir meu texto embasado em minhas próprias opiniões sobre o ocorrido:

Todo mundo conhece os fatos citados por Luis Ruffato, os ruins e os bons, já que o escritor não deixou de mencionar o grande número de brasileiros que conseguiu sair da miséria nos últimos anos, dentre outros dados otimistas. Acontece que o brasileiro não gosta de ouvir alguém criticando o seu país, principalmente no exterior. O que essas pessoas se esqueceram é que o papel do escritor, o papel da literatura, é justamente o de despertar, de incomodar, de fazer refletir sobre algo.
Não sei se esses brasileiros que acompanharam com tanto afinco as notícias sobre a Feira do Livro de Frankfurt já se deram conta disso...
Seja como for, acredito que o discurso foi muito bem proferido. Alguns termos, que foram considerados ofensivos, foram bem utilizados, na minha opinião.
O artista, seja de que área for, não está aqui para elogiar alguém ou alguma nação e negligenciar fatos históricos em prol de uma melhor "aparência" para o resto do mundo. O artista deve suscitar reflexão, incomodar, e isso foi muito bem feito por Luis Ruffato.
Dou meus parabéns a ele. De nada adianta ficar calado em nome da boa educação ou da etiqueta. Precisamos criticar, precisamos refletir.
Sempre.

Abaixo segue o link da Folha de São Paulo que contém a íntegra do discurso. Leiam e tirem suas próprias conclusões: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/10/1353517-escritor-luiz-ruffato-diz-em-frankfurt-que-brasil-e-pais-da-impunidade-e-intolerancia.shtml




quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Sugestão de leitura: A Revolução dos Bichos



Olá a todos.
Há muito tempo (anos) que não faço alguma recomendação de leitura.
Peço desculpas, mas vou recomendar um livro tão interessante, que casos vocês queiram ler, vão logo me perdoar.
Li recentemente o clássico A Revolução dos Bichos, de George Orwell.
Ah... é aquele livro que aquele monte de pseudo intelectual fica falando sobre em mesas de bar? Bom, é esse mesmo!
Acontece que, devido ao seu caráter político, muitas pessoas acabam gostando bastante de discutir sobre ele, sejam os intelectuais ou os aspirantes. Seja como for, o livro é digno de nota por ser um clássico, ou seria um clássico por ser digno de nota?
Vários teóricos e críticos falam a respeito da natureza metafórica do livro. Na verdade, ao que parece, a intenção do autor era criticar o regime totalitarista soviético, mas, na verdade, a crítica pode se estender para todo e qualquer tipo de repressão social. No romance, os bichos de uma fazenda, cansados de serem subjugados pelos humanos, decidem fazer uma revolução. Ao fim, eles obtiveram o domínio sobre o Rancho do Solar e o batizaram como Rancho dos Bichos, lugar no qual todos os animais seriam iguais e livres, uma filosofia bem utópica, mas (e?) próxima do socialismo. Acontece que o poder subiu à cabeça dos porcos, os animais mais letrados, e estes começaram a gostar dessa "superioridade".
Durante o percurso da história, os porcos fazem coisas antes proibidas para todo animal, mas conseguem enganar aos demais, chegando e se mantendo no poder e, principalmente, mantendo o povo sob controle.
Ao término da obra, em uma cena muito imagética, os porcos se misturam com os humanos, com os quais estavam tendo uma reunião de negócios (mais uma quebra do acordo). Nessa hora, o narrador afirma que não sabia distinguir os porcos dos homens, em uma clara crítica aos políticos e governantes em geral.
Recomendo vivamente a leitura para qualquer um que queira refletir um pouco mais sobre os sistemas políticos vigentes...
Boa leitura a todos!

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Lobisomem: o Apocalipse

Dando continuidade aos nossos posts a respeito dos cenários de RPG, falaremos hoje do nosso terceiro cenário favorito no sistema Storyteller. Esse texto é apenas uma pequena introdução para aqueles não familiarizados com o jogo.




Imagine que você está caminhando com sua namorada depois de um cinema. Já é quase meia noite e a rua está deserta. Já próximo da casa dela, vocês cortam caminho por um parque quando escutam um barulho. Um grupo de jovens que se drogavam ali perto começa a se aproximar. Vocês apertam o passo, mas percebem que os quatro já estão em seu encalço. _Ei, cara! Grita um deles. Vocês param. Sua namorada está tremendo, e não é apenas pelo frio. Os quatro rapazes começam com gracinhas. Você se irrita. Eles percebem sua cara de poucos amigos e começam a ameaçar vocês. Sua namorada oferece a bolsa, mas eles dizem que querem outra coisa... Você se enfurece mais. Ao notar sua expressão ofensiva, um deles saca um canivete e se aproxima dizendo que seria melhor que você ficasse calado. Seu peito já está doendo de tanta raiva. Então você ouve um grito e, ao se virar, vê que dois deles seguram a pobre garota. Você parte para cima deles tentando protegê-la, mas outro te segura e o quarto coloca o canivete no seu pescoço. Mas já é tarde demais. A raiva é tanta que você não se importa mais com a segurança de vocês dois e, fazendo muita força, se liberta daquele que te segurava, apenas para sentir o canivete cortando sua garganta. A Fúria no seu peito dói mais que o corte no pescoço e tudo fica escuro. Quando você volta a si, percebe que os quatro babacas estão mortos ao seu redor. Todos estraçalhados. Você procura por sua namorada, mas não a encontra. Ao reparar direito, você depara com seu corpo todo nu e ensanguentado. Um pouco à frente você vê a garota deitada, de bruços. Você corre até ela e se assusta: há uma mordida gigante que vai do seu ombro direito até metade das costas da moça. Ela está morta. A raiva dá lugar a outro sentimento...
***

Lobisomem: o Apocalipse é o segundo jogo mais vendido do Mundo das Trevas. Nele, você interpreta um ser de natureza dual, um ser metade carne e metade espírito; metade homem e metade lobo. Os Garou, como eles se chamam, são os guerreiros escolhidos por Gaia (a mãe Terra) e abençoados por Luna (a Lua). Eles conseguem se comunicar com os espíritos da natureza, percorrer atalhos e visitar o Mundo Espiritual (a Umbra), possuem muitos poderes (dons e rituais) e são muito poderosos pois conseguem se mudar em cinco formas diferentes. Todas essas armas são utilizadas na batalha constante contra as forças que tentam corromper e destruir o mundo, a Wyrm. No entanto, a benção do lobisomem é também sua maldição. Ao se descobrir como um membro dessa raça de guerreiros sagrados, eles descobrem também que não mais fazem parte do mundo "normal". Não podem mais ver seus amigos nem parentes, já que a Fúria que arde dentro deles é incontrolável e, às vezes, você não consegue distinguir amigo de inimigo, colocando seus entes queridos em perigo. Para evitar que isso aconteça, comunidades inteiras de garou com uma cultura e, normalmente, genes em comum se reúnem em Caerns, locais sagrados que emanam a energia pura da terra. Esses lugares estão em extinção e a proteção deles também é dever dos garou. As famílias nas quais se dividem os lobisomens são as Tribos, em número de 13, aproximadamente.

Lobisomem é muito mais do que brincar com uma máquina de batalha. É muito mais do que matar os inimigos e voltar pra casa pra beber cerveja. O ser chamado Garou não escolheu ser o que é, ele nasceu com o gene. Foi escolhido por Gaia para ser um de seus protetores e ele não pode recusar, com risco de cair na danação. Houve uma tribo que negou sua tarefa e, hoje, são os principais inimigos dos garou.

Cada uma das tribos compartilha da cultura de um determinado povo: os Fianna com os celtas das ilhas britânicas; as Fúrias Negras com as amazonas gregas; os Cria de Fenris com os Vikings; os Uktena e os Wendigo com as tribos indígenas norteamericanas. Esse jogo, além de tudo, inspira nos jogadores a importância do dever ecológico que todos devemos ter, a importância da preservação ambiental e cultural. Ensina a respeitar às regras (ou quebrá-las quando for melhor). Ensina a ser responsável por seus atos e suas escolhas.

Sem dúvidas, é uma boa opção para quem deseja experimentar um jogo novo!

Então, comprem ou baixem o livro e se divirtam!

domingo, 18 de agosto de 2013

O Hino Nacional é mesmo nacional?

"Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo heroico o brado retumbante."



Os dois primeiros versos da letra do nosso Hino Nacional são frequentemente analisados e cobrados em exercícios das aulas de português. Isso é devido à sua sintaxe diferenciada e prolixa. A frase, em ordem direta, seria mais ou menos assim: As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico.
No entanto, o fato de o sujeito dessa frase não ser facilmente recuperável não é a única coisa que torna o nosso Hino algo diferente, exótico e longe de ser nacional. Apenas nesses dois primeiros versos nos deparamos com as palavras "plácidas" e "retumbante". Se o hino é nacional, se representa nossa terra e nossa gente, por que é que a grande parte dos cidadãos brasileiros ouvem, leem, mas não compreendem a totalidade da letra? Nossa gente sempre foi iletrada em sua maioria. Apenas recentemente os números de analfabetismo têm diminuído, mas, mesmo assim, a parcela da população que compreende o que diz o Hino, recorrendo poucas vezes ao dicionário, ainda é muito diminuta.
Já ouvi alguém dizendo que o Hino é lindo porque foi feito por dois grandes intelectuais, não desacredito na capacidade destes compositores, e sei bem que contexto sócio-histórico no qual foi composto o nosso Hino se difere bastante do atual. Não quero também defender a possibilidade de uma "adequação" da letra à sociedade atual. Seria uma boa ideia, mas seria muito pretensiosa. Quero apenas chamar a atenção para a prolixidade da letra desse hino que se propõe nacional mas não alcança a totalidade das pessoas dessa mesma nação.
Se o povo brasileiro possui um sentimento nacionalista ao ouvir o Hino, acredito que não seja devido à letra, repleta de arcaísmos como "plácido", "brado", "fulguras" e "flâmula", mas devido à melodia.
É por essa complexidade da linguagem utilizada no Hino que a maioria da população não o compreende e, devido a isso, vídeos preconceituosos que se escondem por detrás de uma máscara de cômico, como o vídeo acima, são produzidos e disseminados:
Acho o nosso hino muito belo e bem produzido, mas é fato que sua pretensão de ser nacional, não passa disso: uma pretensão.

Caso queiram vocês podem encontrar aqui a letra e a música do nosso Hino: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/hino.htm

Observação: Tá, eu sei que o pessoal do vídeo poderia não ter errado alguns versos, mas o vídeo serve para ilustrar minha ideia de que o hino não é acessível e facilmente compreendido pela maioria. Falta-me uma fonte científica para afirmar isso com exatidão. Deixo aqui apenas minha opinião e reflexão. :)

sábado, 29 de junho de 2013

Rotina

Parecia que nada iria mudar. Já havia falado mil, não, um milhão de vezes. Ela não me compreendia e nem queria me compreender.
Bati a porta com força (queria mostrar toda a minha raiva) e saí irresoluto como se já tivesse um destino em mente. Mas não tinha. Era pouco depois das sete da noite e, por ser inverno, já estava escuro. Passei pela frente de uma casa e ouvi a chamada do jornal noturno vindo de uma janela entreaberta. Vinha um cheiro de bife de lá também e me lembrei de que não havia jantado.
“Droga” – pensei. “Passo o dia todo trabalhando para isso?”. 
Desisti de reclamar e continuei andando. Um pouco mais à frente, perto do parquinho, vi um garoto brincando. Por um ínfimo momento me alegrei e dei um passo. Mas parei e voltei a me entristecer. Não era ele. Não podia ser ele, mas que diabos... O pai do garoto me viu chegando e, aproximando-se da criança, se abaixou e falou algo para ela. Os dois sorriram e o menino, de uns três ou quatro anos, ergueu os bracinhos pedindo colo. Não os reconheci. Acompanhei suas formas descendo a rua. Não era ele. Como poderia ser ele? Ele nem ao menos chegou a nascer...
Fiquei ali, parado, olhando para o balanço que ainda se movia. Respirando o ar frio daquela noite de julho. Algum tempo se passou, não sei ao certo. Uma moto barulhenta me retirou do meu devaneio.
"Devo voltar para casa, o jantar já deve estar pronto".
Virei-me e andei. Desta vez, com um rumo quase certo.
Ela estava ainda no sofá, no mesmo lugar que eu havia a deixado quando saí e bati a porta. Ela ainda se abraçava à almofada que fedia a cachorro como se isso pudesse lhe servir de escudo. Por um instante, senti pena dela e raiva de mim mesmo. Depois, senti raiva dela e pena de mim. Respirei fundo, como que para mostrar que eu estava ali. Ela entendeu o recado e parou de soluçar repousando a cabeça com os cabelos desgrenhados na almofada. Eu segui direto para a cozinha. Não havia jantar. Não havia ânimo. Não havia tevê ligada com a chamada do jornal. Não havia pequenos braços me pedindo colo.
Dormi com fome mais uma vez.

No Labirinto




Ando preso em um labirinto.
Corro, bato contra a parede e esta me repele, tão fria e sólida quanto meu medo.
Por vezes, há uma curva... ao entrar,
Vejo-me numa espiral. Retorno. Caminho.
Encontro alguns espelhos espalhados. Espelhados.
Quebro e fujo. Não quero ouvir o som do vidro se quebrando no chão.
Esse som me lembra meu próprio choro.
Não há dia.
Apenas noite.
Uma noite apenas?
Quem sabe...
Lá era mais ensolarado. Lá era mais calmo. Lá eu não temia. Eu não me temia...
Preciso de asas de cera.

Ando preso em um labirinto.

terça-feira, 7 de maio de 2013

As línguas do mundo


Vocês sabiam que existem mais de 6.000 línguas espalhadas pelo globo?
Sabiam também que a cada duas semanas, uma delas morre!
Pois é. Este é um fato muito triste, visto que, com a morte de uma língua, morre toda uma cultura, uma história, uma comunidade...
É sabido que existem povos plurilíngues, no entanto, cada língua dominada pelos seus integrantes é utilizada em um determinado contexto. Quando uma língua morre, significa que as práticas sociais das quais ela fazia parte também estão em vias de extinção.
Fato mais triste ainda é quando uma língua morre por seu último falante também morrer. Aí não tem mais jeito, morreu uma língua e uma sociedade.
Hoje, felizmente, existe a preocupação politica e linguística em relação a essas línguas minoritárias e alguns órgãos, como a UNESCO, fazem alguns trabalhos de preservação.
O vídeo acima fala um pouco sobre isso.
Sugiro que vejam.
Até logo.

domingo, 5 de maio de 2013

O Sonho de Ícaro



 Welton Pereira e Silva
Caminho para o alto da montanha
Lanço o olhar abaixo. Tenho medo 
O vento sopra no fundo do abismo 
Carregando meu mórbido segredo 

Salto para o grande vácuo do céu 
Olho para a frente e me desespero 
A malícia do sol rompe meu sonho: 
As frágeis asas feitas com esmero 

Voo em direção do tórrido astro 
Não conseguem então me sustentar 
As penas que de cera foram feitas 
Me despenco. Caio através do ar

Caio rapidamente para o mar 
Em breve serei teu, oh deus da Morte
Fecho meus olhos. Aceito meu Fado
Para meu fim, meu pai foi meu consorte.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

RPG: desconstruindo mitos



Olá a todos.
Recentemente está correndo pelas redes sociais uma matéria do jornal "A Tribuna" (imagem acima) na qual o jornalista tenta informar seus leitores a respeito de algumas seitas.
Com o título sensacionalista "Rituais macabros em algumas seitas", o jornal chama a atenção dos pais para o que pode estar acontecendo com seus filhos. Assim, sob essa máscara de "preocupação com a juventude', o jornal acaba por despejar uma série de inverdades a respeito dessas supostas seitas.
Primeiro, eles falam do Satanismo. Eu não conheço nada dessa entidade, por isso não vou comentar, no entanto, o jornalista diz que alguns satanistas são adeptos do rock e usam roupas pretas. Ótimo, mais um conceito pré-estabelecido em relação aos roqueiros e grupos afins...
Depois de falar sobre o RPG, o jornalista descreve algumas práticas, que ele julga ser, wiccanas. Não me prolongarei aqui também, no entanto, a Wicca é uma religião pagã, não uma seita maléfica ou algo do tipo.
Por fim, me deterei mais sobre a análise a respeito do RPG.
Na parte na qual o jornalista descreve as práticas dos rpgístas, ele o faz com alguma lucidez, chegando a explicar que trata-se de um jogo de interpretação de papéis. No entanto, logo em seguida ele pede para que os pais fiquem atentos ao comportamento diferenciado de seus filhos, como rebeldia, falta de vontade de ir para a escola e agressividade. Ou seja, todos esses comportamentos (muito comuns na adolescência) poderiam ser causados pelo "vício" no jogo.
O remate do texto diz que esse jogo pode levar as pessoas a cometerem assassinato e afirma que o RPG é associado com o satanismo.
Pronto, paremos por aqui com o assunto do jornal e vamos tentar desmistificar tudo isso:
Felizmente, nos últimos tempos o Role Playing Game vem sendo estudado na academia e alguns mitos que circundam essa prática social estão sendo derrubados.
Vários trabalhos nas áreas de Pedagogia, Psicologia, Letras, Antropologia, dentre outras disciplinas têm abordado a questão da melhoria cognitiva, educacional e social que o jogo de interpretação pode trazer. Até a NASA utiliza jogos de RPG para que os tripulantes das naves espaciais não sintam muita falta da sociabilidade enquanto fazem seus trabalhos lá em cima.
Recentemente, o primeiro ministro da Noruega, Heikki Holmas, deu uma entrevista falando a respeito do caráter sócio-interacionista do RPG, afirmando que a prática desse jogo com grupos étnicos inimigos pode contribuir para o fim de brigas e retaliações, na medida em que um grupo passa a entender os costumes e comportamentos do outro grupo.
Na Educação, o RPG está sendo cada vez mais utilizado nas aulas de História e Geografia, principalmente os cenários que tratam sobre os Bandeirantes no Brasil e outras questões ligadas ao nosso país. Além dessas aulas, as de Português e Literatura encontram fortes aliados em cenários fantasiosos que trazem à tona mitos de várias culturas do mundo, além disso, no RPG, é comum que os jogadores façam um prelúdio para seu personagem e ajudem o narrador a tecer uma história. Como futuro profissional da linguagem, posso afirmar que essa atividade criativa é muito proveitosa e auxilia na hora da confecção de um texto narrativo, por exemplo.
Ah, e temos também a contribuição com as aulas de Matemática que podem utilizar o sistema de regras de alguns RPG's para aplicar aquilo que os alunos aprendem. Com um pouco de imaginação e vontade do professor, as aulas de Física podem ser também auxiliadas com algumas regras como o lançamento de projéteis, magias, e outras questões naturais que são utilizadas nos jogos...
É bom ver que alguns jogadores, ao chegarem à fase adulta, conseguem utilizar suas profissões para derrubar algumas barreiras consolidadas a respeito desse jogo.
Por fim, quero deixar agora um relato pessoal: o RPG auxilia nossa sociabilização, combate a timidez, estimula a criatividade e obriga os jogadores a fazerem muita, mas muita leitura mesmo!
Sendo assim, acho que faltou um pouco de pesquisa por parte do jornalista do jornal acima relatado, o que é uma pena e uma completa falta de profissionalismo.

Notícia de última hora: enquanto redigia esse texto, o jornal fez uma espécie de retração sobre o assunto expondo várias opiniões sadias de jogadores de RPG. Já é um começo...

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Viagem no tempo e variação linguística (?)


Se vocês gostam de ficção científica, assim como eu, já devem ter visto vários filmes e lido alguns livros que trazem a temática da tão sonhada viagem temporal.
Agora, uma questão que não me sai da cabeça é a que diz respeito à comunicação entre esses povos diferentes que entrariam em contato. O que estou dizendo é que, da mesma forma em que uma viagem interplanetária colocaria espécies biológicas diferentes em contato, as viagens temporais acarretariam na convivência entre diferentes "espécies culturais".
Observe que estou colocando os verbos no futuro do pretérito, o que significa possibilidade: colocaria, acarretaria.
Explicações dadas, vamos ao assunto principal.
Por acaso você já viu "De Volta para o Futuro" ou já leu "Um Ianque na Corte do Rei Artur"? Pois bem, no filme, os personagens não viajam para muito longe no tempo, mas no livro sim. Suponhamos então que uma viagem como a desse livro possa ocorrer. Nesse romance de ficção, uma marretada na cabeça faz com que o protagonista acorde na Idade Média. Ao final do livro, ficamos na dúvida se tudo foi real ou se não passou de um sonho.
Nesse romance, Mark Twain nos releva que Hank Morgan, o ianque, havia estranhado o sotaque de um cavaleiro medieval agregado à corte arturiana quando os dois se encontraram:


Ele gritou algumas palavras comigo. Seu sotaque era inglês, e sua língua
parecia muito com o inglês, embora fosse um pouco diferente. Por isso não entendi
logo o que ele estava falando:
— VÓS PUGNAREIS comigo?
— Hein? Se eu o quê?
— Eu sou Sir Kay e vos convido para uma PUGNA! JUSTA. Por algum
pedaço de terra ou pelo coração de uma dama ou então...
— É melhor você voltar para o circo de onde veio ou eu vou chamar a
polícia — falei, interrompendo aquela figura estranha.


Tá bom, esse já um grande avanço... no entanto, se esse diálogo acontecesse, o estranhamento seria tão grande que, possivelmente, os dois não conseguiriam se compreender. Isso se deve ao fato de a língua não ser estática, mas, pelo contrário, ela não para estagnada por muito tempo...
Principalmente no que diz respeito ao léxico e aos sons, mas não só, as línguas evoluem, se adaptam e, por consequência, mudam.
O livro aqui tratado é voltado para o público juvenil e, certamente, essa preocupação não chega aos leitores desse livro ou àqueles que assistem aos filmes e desenhos animados que tratam da hipotética viagem temporal. Mesmo assim, é notável que o autor americano tentou representar a variação diacrônica do inglês para os leitores de seu romance, mesmo que na versão em português essa tentativa tenha se restringido ao uso do "vós" e de alguns arcaísmos.
Uma das principais preocupações da Linguística Histórica é justamente a reconstrução de estruturas gramaticais de línguas antigas ou de fases antigas de uma dada língua. Caso essas viagens pudessem ocorrer, um vasto material linguístico estaria disponível!
Apenas como título de ilustração, observe a cantiga trovadoresca abaixo escrita, logicamente, em português medieval:

A Bonaval quer'eu, mia senhor, ir
e des quand'eu ora de vós partir
os meus olhos nom dormirám.

Ir-m'-ei, pero m'é grave de fazer;
e des quand'eu ora de vós tolher
os meus ohos nom dormirám.

Todavia bem será de provar
de m'ir; mais des quand'eu de vós quitar
os meus olhos nom dormirám.

A cantiga de amor acima foi escrita pelo trovador Bernal de Bornaval. Certamente, com um pouco de esforço você será capaz de entendê-la, no entanto, a língua escrita evolui muito mais lentamente que a língua falada. Ou seja, entender algum português que porventura possa reproduzir essa cantiga com a pronúncia aproximada daquela época seria uma tarefa árdua. Imagina então entender o próprio português medieval a recitando, ou cantando?
Eu compreendo bem que, caso a barreira linguística fosse levada a sério, os livros e filmes sobre viagens temporais ficariam bem entediantes... e essa não é a função do cinema nem da literatura.
Eu não estou questionando esses autores, muito pelo contrário, quis apenas suscitar alguma reflexão linguística com um material tão comum e presente na vida dos jovens de hoje em dia.
Espero ter conseguido! :)


  1. Na foto acima, Michael J. Fox e Christofer Lloyd no clássico "De volta para o Futuro" (1985)
  2. Cantiga retirada do site http://cantigas.fcsh.unl.pt/listacantigas.asp



terça-feira, 2 de abril de 2013

Meu diagnóstico



"O médico perguntou:
_O que sentes?

E eu respondi:
_Sinto lonjuras doutor. Sofro de distâncias." 


Caio Fernando Abreu

sábado, 23 de março de 2013

Asas de Ícaro, cera que o sol derrete.



Vocês já ouviram a lenda de Ícaro, aquele jovem grego que, com a ajuda de seu pai, conseguiu voar pelo céu?
Não?
Deixe-me relata-la brevemente para você, meu caro leitor. (Tomando emprestado o tratamento carinhoso do Bruxo do Cosme Velho).
Pois bem, Ícaro era filho de Dédalo, um proeminente inventor e engenheiro. O sonho de Dédalo era construir um modo de fazer com que ele e seu filho escapassem de seu cativeiro, e resolveu tentar ganhar a liberdade através do céu.
Numa dada ocasião, o engenheiro conseguiu criar um invento e o implantou em si mesmo e em seu filho.
Ao colocar o par de asas mecânicas, Ícaro voou.
Mas as asas eram de cera e, ao se aproximar demasiadamente do carro de Apolo, o Sol acabou derretendo as asas do jovem sonhador, que veio a despencar das alturas por não ter ouvido os conselhos de seu pai que dissera para que ele não voasse tão alto.
Acredito piamente que Apolo tenha se enciumado pelo fato de um mortal ter alcançado as alturas até então dominada apenas por ele em seu carro.
Acredito nisso porque, assim como no mito, por mais que façamos para alçarmos voo e chegar às alturas, sempre encontramos alguém disposto a queimar nossas asas de cera.
Sei que estou sendo pessimista.
Apesar desse tom sufocante, a mensagem que tenho a passar é positiva e até instigante:
Que de agora em diante, não façamos mais nossas asas de cera.
As chances de nos fazerem cair, serão menores.
Consolide então o seu sonho. Torne-o firme e galgue ultrapassar o Sol.

*O título é uma frase do prefácio da segunda parte da Lira dos Vinte Anos de Álvares de Azevedo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O sepulcro da donzela




(Welton Pereira e Silva)

O íntimo de meu ser agora carrega
Lembranças da alegria esquecida
Meu peito a essa dor então se entrega
Por ela, a quem dediquei minha vida

Por ela que foi a dona do meu amor,
Mas não quis cuidar do meu coração
Que a ela entreguei sem temor.
Preferiu ter uma vida de perdição.

Espalho minhas dores ao vento
A lembrança do passado me alucina
Tento em vão esquecer o momento
Em que por amor, cometi uma chacina.

A loucura em mim faz morada
E no campo dos mortos fico a esperar
Espero da noite até a alvorada
Espero por ela que um dia irá voltar.

Aguardei toda a noite, mas não tive sorte.
Preciso revê-la, esperarei por toda a vida.
É possível o amor conviver com a morte?
Eros e Thanatos, respondam minha dúvida!

A madrugada se vai, ao dia dá seu lugar
A noite aqui passei, ela não apareceu.
O que houve, onde a vou encontrar?
Será que um dia findará o sofrimento meu?

Arrependo-me do crime cometido.
Peço aos céus perdão, clamo piedade.
Os céus se fecham ao meu pedido
– Meu Deus, já não basta esta saudade?

Próximo ao túmulo dou voz à razão
À sombra deste sepulcro dorme aquela
Que a outro prometeu seu coração
Aqui descansa minha tão amada donzela.




sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Mar Português (Fernando Pessoa)



Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

(Foto tirada durante minha viagem a Peniche - em Portugal)

Nossas Línguas Portuguesas




Quando estava vindo para Portugal, muitas pessoas me diziam que valeria mais a pena fazer intercâmbio em um país de língua estrangeira para me aprofundar em outro idioma. Mas a verdade é que, vindo para cá, me deparei com versões estrangeiras da minha própria língua.
No curso de Letras, aprendemos desde logo que a língua portuguesa varia consoante o espaço geográfico que ela ocupa. Aprendemos também que durante a época das Grandes Navegações ela foi levada para os cinco continentes habitados. No entanto, normalmente não temos acesso a esse aprendizado na prática, mas apenas nos livros. O que quero dizer é que, vindo para o país no qual surgiu a língua portuguesa, tive a oportunidade de entrar em contato com muitas variedades do português brasileiro e do português europeu, além de me deparar também com falantes do português timorense, moçambicano, angolano, cabo-verdiano e até macaense, embora o português nalguns desses lugares seja falado apenas por uma parcela ínfima da população, normalmente a classe mais privilegiada.
Chega a ser engraçado eu mencionar que conheci outras variedades do português brasileiro apenas aqui em Portugal, mas dado o tamanho do Brasil e as dificuldades em se viajar dentro dele, qualquer um pode entender esse fato. O programa do qual faço parte enviou cerca de quatrocentos estudantes de diversas regiões brasileiras para vir estudar em Coimbra, por isso, o contato direto com os dialetos do PB se tornou situação corriqueira. Numa mesma mesa de jantar, por exemplo, podemos ouvir um “uai”, de um mineiro, um “oxi” de um baiano e um “bah” de algum gaúcho... dentre outras possibilidades.
Na verdade, a situação do português em outros lugares do mundo é bastante delicada. Apenas em Portugal e no Brasil ele é considerado uma língua de caráter nacional, ou seja, falado em todo o território. Nos países africanos, a língua portuguesa divide espaço com diversas outras línguas autóctones e em Macau e no Timor-Leste, ela é praticamente usada apenas em documentos oficiais, possuindo poucos falantes, como já mencionei acima.
De qualquer modo, minha estadia em terras lusitanas fez com que eu pudesse manter contato com várias outras facetas da nossa língua e também com o que essas diferenças geram: o preconceito linguístico. É preciso fazer conhecer que as línguas variam naturalmente, seja no tempo, no espaço ou mesmo de um grupo social para outro. Apenas quando esse conhecimento por transmitido de forma eficiente pela escola, e não só, é que conseguiremos combater esse preconceito que vem muito bem disfarçado na maioria das vezes.