quarta-feira, 8 de abril de 2015

A Religiosidade de Ricardo Reis

Ricardo Reis é apenas um das múltiplas face do Supra-Camões (como gostava de pensar sobre si mesmo o grande Fernando Pessoa).
Este heterônimo pessoano era médico e devido aos seus ideais monárquicos, foi exilado (espontaneamente) aqui no Brasil.
Sua poesia é repleta de referências à Cultura Clássica e aos mitos pertencentes a essa cultura. Em vários de seus poemas, podemos encontrar menções a Apolo, Vênus, Netuno e muitas outras entidades mitológicas. No entanto, Ricardo Reis tentava fazer conviver em suas odes a existência dos deuses romanos juntamente com o deus cristão. Isso significa que, para ele, Jesus Cristo não era um deus único, filiado ao Pai e ao Espírito em apenas uma unidade, mas ele era considerado apenas um deus a mais, "talvez um que faltava". Dessa forma, o panteão ricardiano, por assim dizer, era um lugar no qual coabitavam os deuses clássicos e o Deus Triste. Este último título é a maneira como ele se refere a Cristo.
Na verdade, esse neo-classicismo de Ricardo Reis é um ponto de vista amplamente democrático, afinal, ele reconhecia a existência desses deuses sem negar nenhum, dando lugar igual a todos.
É uma pena que ele não tenha mencionado outros deuses de outras culturas. Mas é compreensível, afinal, sua estética bebia do clássico latino. Tanto que seus poemas tomavam o formato de odes e sua sintaxe trazia sempre muitas inversões comuns no latim literário, que não possuía uma sintaxe fixa.
Ricardo Reis, além de incluir Cristo no panteão latino, ainda ataca aos seus seguidores, no caso, os cristãos. O próprio heterônimo afirma que faz isso devido ao fato de que esses crentes tentam impor seu deus e apenas aceita a Ele como o único... esse fato faz com que Reis lamente que, agora, os deuses sejam lembrados apenas como enfeites e alegorias.
Abaixo, temos um poema que ilustra bem as ideias desse fragmento pessoano:


O Deus Pã não morreu, 

Cada campo que mostra 
Aos sorrisos de Apolo 
Os peitos nus de Ceres — 
Cedo ou tarde vereis 
Por lá aparecer 
O deus Pã, o imortal. 

Não matou outros deuses 
O triste deus cristão. 
Cristo é um deus a mais, 
Talvez um que faltava. 
Pã continua a ciar 
Os sons da sua flauta 
Aos ouvidos de Ceres 
Recumbente nos campos. 

Os deuses são os mesmos, 
Sempre claros e calmos, 
Cheios de eternidade 
E desprezo por nós, 
Trazendo o dia e a noite 
E as colheitas douradas 
Sem ser para nos dar o dia e a noite e o trigo 
Mas por outro e divino 
Propósito casual. 

Ricardo Reis, "Odes"


Nesse poema, a posição de Reis a respeito da relação entre os deuses é bastante clara, no entanto, em diversos outros poemas ele denuncia também sua opinião a respeito dos cristãos.
Essa característica pode ser explicada pelo fato de Ricardo Reis ter sido pupilo do mestre Alberto Caeiro, outro heterônimo pessoano que também possuía raízes clássicas. Dessa forma, Reis encontrou no paganismo a negação da sua sociedade e isso inclui o catolicismo.

Nenhum comentário: